quarta-feira, setembro 07, 2011

O dia que sai de casa... e não voltei mais.

Num dia desses, numa dessas minhas tardes convencionais. Tão corriqueiro como qualquer outro dia, variava minha atenção entre as apostilas e o computador. Foi quando minha nuca, que estava tão difícil de lidar quanto qualquer um daqueles exercícios de física que eu acabara de fazer, fez valer sua vontade gritando por um descanso. Joguei o resto das obrigações pra cima e sai correndo antes que me acertassem a cabeça.

Resolvi tomar um banho. Não qualquer banho, um daqueles ecologicamente incorretos, que levaria qualquer ambientalista ao suicídio. Não sendo o caso de não me simpatizar pela ideia de um mundo mais verde, mas a tensão entre meus ombros era tanta, como se um desses fosse capitalista e o outro socialista, e resolvessem repassar toda a história da Guerra Fria naquele momento, abaixo da minha cabeça. Comparação hiperbólica, prestes a ser superada por um banho hiperbólico. Depois, a consciência, no menor dos casos, seria limpa pela água corrente. Vamos lá.

Tudo pronto para colocar meu plano em prática, quando no intervalo de esticar meu braço em direção à torneira do chuveiro, o interfone toca. Nunca fora tão agudo ou incômodo como agora. No momento, lembro que pensei que só poderia ser a Lei de Murphy do outro lado, enviada pelo destino. Era pior, era o jardineiro. História a parte, mas fez-se tamanho teatro para cuidar do jardim, para contatá-lo e agora ele buzinava no meu descanso. Outra comparação hiperbólica, mas oportuna, era mais fácil localizar o Bin Laden do que esse cara. Sereno e já trajado, e de certa forma conformado que meu plano maquiavélico de conforto tinha afundado, fui atendê-lo.

Ele queria saber o que era para ser feito na frente da casa, coisa que eu realmente não sabia. Conversamos por alguns minutos no portão sobre preços e jardinagem, e eu fingi arduamente entender sobre os dois. Ele me pediu para mostrar como o canteiro central deveria ser tratado, então saímos do portão. Mal sabia eu que aquela era a minha zona de conforto.

Uma nota paralela: O dia estava lindo, o calor de sempre, mas o sol reinava no céu sobre as nuvens. Eis que acontece, o clímax da história: A um passo de distância da entrada, quando um vento, que suspeito ter origens sobrenaturais, me assopra para fora de casa. O jardineiro percebe minhas pupilas dilatadas e pergunta, para confirmar a minha sina. Faço um sinal de positivo com a cabeça, estampando uma expressão facial negativa. De maneira extremamente educada, dessas que não se vê em tempos atuais, ele ficou para conversarmos um pouco, mesmo depois de tudo resolvido, e eu achei aquilo admirável. Claro, depois de um certo tempo falei que não teria problema nenhum se ele quisesse ir embora, que eu não queria alugar seu tempo. Ele foi, e eu tratei de planejar novamente alguma coisa para fazer, dessa vez porém, sem absolutamente nada além de plantas e um portão bem lacrado ao meu redor.

Sentei na soleira e comecei a organizar pensamentos, nada tão importante, mas com certeza coisas que antes não tinha tirado tempo algum para considerar. Interrompido por um trovão, reparo no céu o que todo o ocorrido me impedira de reparar antes. O tempo mudara, as nuvens começaram a se pintar de cinza, como se para me provocar. “Aqui está o seu banho. Saiu de casa, rapaz, é para se molhar!” Mas por incrível que pareça, me mantive calmo e continuei a caçar atividades, evitar o tédio. Enfiei a mão na caixa de correio e me auto furtei alguns panfletos de propaganda, que mesmo se tratando de inutilidade publicitária, fizeram-se valer por ótimos materiais de arte plástica. Depois de tentativas de esculturas e origamis, fiz o que poderia fazer de melhor com aqueles pedaços de papel: embolar e jogar no lixo.

O tempo continuava nublado, mas parecia pouco provável chover, para a minha felicidade. Entre pensar e experimentar uma carreira de artista plástico, tirei uns bons quinze minutos. Meia hora depois desses, completou-se minha sentença, decretada pela sorte. Me ver do lado de fora de casa rendeu aos meus pais sobrancelhas levantadas e gargalhadas. Que bom. Para mim, de lucro só coube uma lição. Na vida, as coisas nem sempre saem do seu jeito. As vezes você sai no prejuízo. O que não dá é sair sem suas chaves.

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